SAÚDE, TERRITÓRIO E VETORES: DIVERSIDADE DE CULÍCIDEOS E SABERES TRADICIONAIS EM COMUNIDADES INDIGENAS E QUILOMBOLAS DO MATO GROSSO
arboviroses. culicídeos. povos originários. saberes tradicionais. territórios tradicionais. saúde ambiental. vigilância entomológica.
Comunidades indígenas e quilombolas do Mato Grosso estão expostas a riscos elevados de doenças transmitidas por vetores, em contextos marcados por isolamento geográfico, infraestrutura limitada e acesso insuficiente aos serviços de saúde. Esta dissertação investigou essa vulnerabilidade a partir de duas perspectivas complementares: a ecologia da comunidade de culicídeos presente nesses territórios e os saberes tradicionais mobilizados pelas populações para o controle de vetores e o manejo de arboviroses.O primeiro estudo analisou a composição, a diversidade e a estrutura da fauna de mosquitos da família Culicidae em três territórios tradicionais: a Aldeia Córrego Grande (etnia Boe-Bororo), a comunidade Quilombola do Chumbo e a aldeia Vila Nova Barbecho (etnia Chiquitano). O levantamento entomológico foi conduzido com armadilhas CDC e de Shannon distribuídas em interior de mata, borda e peridomicílio. A composição faunística diferiu entre as localidades (Qui-Quadrado, p = 0,0005). A Aldeia Córrego Grande apresentou a maior riqueza (21 táxons), com fauna ecotonal típica do Pantanal. O Quilombo do Chumbo exibiu fauna dominada por Culex (89,7%). A aldeia Vila Nova Barbecho apresentou o perfil de maior atenção epidemiológica, com Aedes (38,6%) e Anopheles (15,9%) co-ocorrendo no peridomicílio, indicando risco simultâneo de arboviroses e malária. O segundo estudo analisou a relação entre práticas tradicionais e políticas de saúde pública nas aldeias Aterradinho (povo Guató) e Córrego Grande (povo Boe-Bororo) no pantanal norte mato-grossense, por meio de questionário semiestruturado aplicado a 41 participantes. Mais de 70% dos entrevistados utilizam plantas medicinais como o Melão-de-São-Caetano (Momordica charantia), o Fedegoso (Senna occidentalis) e a Quina (Cinchona officinalis), e adotam a fumaça de materiais naturais como estratégia de repelência.Em conjunto, os dois estudos demonstram que a pressão vetorial identificada pelo levantamento entomológico encontra correspondência nas estratégias tradicionais de proteção documentadas pelo estudo etnossanitário, reforçando a necessidade de políticas de saúde ambiental territorialmente diferenciadas e culturalmente adaptadas.