DE PRINCESINHA DA AMAZÔNIA A CAPITAL DO GADO E FRONTEIRA DO AGRONEGÓCIO: Antecedentes histórico-ambientais, formação e transformações socioambientais de Juara
Palavras-Chave: Amazônia Mato-grossense, Colonização, Dinâmica socioespacial; História Ambiental, História Oral, Conflitos Socioambientais.
A pesquisa intitulada “TRANSFORMAÇÕES SOCIOAMBIENTAIS DECORRENTES DO PROCESSO DE OCUPAÇÃO CONTEMPORÂNEA DE JUARA-MT: Narrativas de memória de diferentes atores sociais”, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais (PPGCA), ofertado pela Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), teve como objeto de estudo as transformações socioambientais decorrentes do processo de ocupação contemporânea capitalista da Amazônia mato-grossense, iniciado no Vale do Arinos a partir de 1955, com vistas à compreensão da formação territorial de Juara. O objetivo geral da pesquisa consistiu em investigar os antecedentes histórico-ambientais, a formação e as transformações socioambientais do território de Juara, decorrentes do processo de (re)ocupação via colonização. Trata-se de uma investigação fundamentada nos pressupostos da pesquisa qualitativa, que buscou promover a articulação entre a História Ambiental e a História Oral. Nesse sentido, a coleta de dados realizou-se por meio de pesquisa bibliográfica, análise documental e levantamento de fontes orais, oriundas de entrevistas voltadas às narrativas de memória de migrantes que vivenciaram as dinâmicas socioecológicas de Juara desde o período inicial. Foram também analisados registros fotográficos provenientes de acervos públicos e particulares, que retratam diferentes momentos do processo de territorialização. Assim, apresenta-se a tese intitulada “DE PRINCESINHA DA AMAZÔNIA A CAPITAL DO GADO E FRONTEIRA DO AGRONEGÓCIO: Antecedentes histórico-ambientais, formação e transformações socioambientais de Juara”. Como resultado, nesse contexto, evidenciam-se como problemáticas centrais os processos de ruptura socioecológica, no avanço da fronteira capitalista, que inseriram a região na ecologia-mundo do capital, produzindo uma racionalidade instrumental marcada pela expropriação territorial, pela reconfiguração do uso da terra e pela intensificação da degradação ambiental. A análise das percepções acerca dessas transformações na memória de diferentes atores sociais, especialmente dos povos originários que já ocupavam a região e dos migrantes — camponeses, trabalhadores braçais e operários — em relação ao processo de colonização de Juara é elemento fundamental da investigação. A pesquisa demonstrou que a ocupação capitalista da microrregião do Vale do Arinos iniciou-se em 1955, com a implantação do primeiro núcleo colonial, denominado Gleba Arinos, que deu origem ao município de Porto dos Gaúchos, no âmbito da política de ocupação da Amazônia implementada durante e posteriormente ao governo de Getúlio Vargas, promovendo mudanças estruturais no uso da terra e desencadeando conflitos com as comunidades indígenas, resultando na integração forçada, na depopulação e na transferência dessas populações para áreas delimitadas pelo Estado, liberando terras para a expansão do capital. O surgimento de Juara, décadas depois, configurou-se como continuidade da expansão da fronteira, sendo que um dos protagonistas da colonização de Juara era habitante, empresário e político em Porto dos Gaúchos. O processo de expansão ocorreu no âmbito da modernização agrícola autoritária e da geopolítica integracionista da ditadura militar, que incentivou a iniciativa privada na ocupação da Amazônia Legal, concebida como espaço vazio e fonte de recursos. Destarte, a ocupação mercantilizada da terra promoveu transformações socioambientais significativas, resultando em efeitos prejudiciais aos ecossistemas, aos povos indígenas desterritorializados e reterritorializados e aos migrantes — camponeses e camponesas, trabalhadores e trabalhadoras também desterritorializados e reterritorializados — que, atualmente, vivenciam a concentração fundiária, a exploração predatória da terra e das florestas, e a intensificação da degradação ambiental. Soma-se a isso a crescente alienação do território à economia globalizada (produção da pecuária bovina extensiva e produção de commodities agrícolas como soja, milho e algodão), articulada à crise ambiental, especialmente no locus pesquisado, em razão do intenso desmatamento, entendido como prática civilizatória vinculada ao processo de desamazonização. Conclui-se que o processo de ocupação analisado consolidou um padrão de desenvolvimento territorial baseado na acumulação por espoliação e na ruptura socioecológica, cujos efeitos persistem na atual configuração regional. Espera-se que os resultados desta investigação contribuam para fomentar o debate e a reflexão acerca das profundas transformações socioambientais da Amazônia. Considera-se que os elementos do estudo podem subsidiar a formulação e a efetivação de ações e estratégias públicas e sociais voltadas ao enfrentamento desses problemas, com vistas à promoção de uma racionalidade ambiental que contemple a gestão socioambiental do território, a conservação da biodiversidade, o cuidado com os seres humanos em sua diversidade ecossocioeconômica, a distribuição equitativa da terra e o acesso e proteção aos bens comuns naturais.