BOI VELHO PARA TEMPOS DE CHUMBO: A TRAVESSIA DA DRAMATURGIA DE LUIZ CARLOS RIBEIRO E AMAURI TANGARÁ NOS ANOS 1980
Literatura Comparada. Dramaturgia Mato-Grossense. Memória Histórica e Memória Coletiva. Ditadura Civil-Militar. Teatro de Resistência.
Esta dissertação, desenvolvida no âmbito do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Estudos Literários – Mestrado, da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), investiga as dramaturgias Gudibai, Meu Boizinho (1983), de Luiz Carlos Ribeiro, e A Dança dos Tangarás (1984), de Amauri Tangará, escritas no contexto da ditadura civil-militar no Brasil. Partindo de um viés histórico-memorialístico, o estudo analisa de que modo essas obras dramatúrgicas articulam memória histórica e memória coletiva como formas de resistência simbólica à repressão, à censura e às estratégicas de silenciamento impostas pelo regime autoritário. À luz da literatura comparada, os textos são analisados de maneira intertextual, buscando-se identificar convergências e divergências estéticas, temáticas e ideológicas entre as duas dramaturgias. O signo do boi-à-serra, elemento central do folclore mato-grossense, constitui o fio condutor da análise, compreendido como signo de resistência coletiva, memória, tradição popular e identidade cultural mato-grossense. A análise considera o teatro como espaço de resistência política e simbólica, especialmente diante dos mecanismos de censura e repressão vigentes no período. Metodologicamente, o estudo articula levantamento bibliográfico, análise literária semiótica dos textos dramáticos e leitura comparada intertextual, buscando compreender como os autores elaboram estratégias estéticas para denunciar a violência institucional, preservar a memória coletiva e afirmar valores culturais populares. O referencial teórico fundamenta-se na literatura comparada (Carvalhal, 2006; Nitrini, 2021), nos estudos sobre memória coletiva e histórica (Halbwachs, 1990), no dialogismo e na carnavalização (Bakhtin, 2010), na estética da recepção (Jauss, 1979; Iser, 1996) e na semiótica do texto (Barros, 2005), entre outros aportes teóricos. Os resultados indicam que ambas as peças constroem uma dramaturgia engajada, em que o boi-à-serra assume centralidade simbólica como metáfora de sacrifício, resistência e permanência cultural, dialogando tanto com o contexto autoritário dos anos 1980 quanto com desafios contemporâneos à democracia e à cultura. Conclui-se que as obras analisadas configuram importantes registros da memória histórica e cultural de Mato Grosso, contribuindo para o reconhecimento e a valorização da dramaturgia regional no âmbito dos estudos literários.