Dinâmica dos estoques de carbono e potencial de créditos REDD+ em cerradões da transição Cerrado–Amazônia
mitigação das mudanças climáticas; sumidouros de carbono; florestas secundárias; dinâmica do carbono; Cerrado-Amazônia
As florestas tropicais constituem um dos principais sumidouros de carbono da atmosfera, mas vêm perdendo gradativamente seu potencial de armazenamento. Os biomas Cerrado e Amazônia são os dois maiores do Brasil e estão entre os mais afetados pelas mudanças climáticas e pelas atividades antrópicas. No primeiro capítulo desta dissertação, avaliamos se a inclusão da taxa de mudança líquida anual dos estoques de carbono (Tx.MC) pode melhorar as estimativas de carbono em projetos REDD+. Para isso, reunimos dados de biomassa e carbono disponíveis na literatura e calculamos a Tx.MC (% ano⁻¹) para diferentes formações florestais dos biomas Cerrado e Amazônia, bem como para florestas tropicais intactas e em regeneração das Américas. Os resultados indicaram elevada variação na dinâmica do carbono, com taxas positivas, neutras e negativas entre as formações avaliadas. Em escala continental, as florestas tropicais intactas apresentaram uma variação de -6,14% da capacidade de sequestro de carbono, calculada a partir das estimativas de Pan et al. (2011). Em contraste, as florestas tropicais em regeneração apresentaram aumento da capacidade de sequestro de 0,84%. Esses resultados indicam que estimar os estoques de carbono sem considerar possíveis reduções após o início dos projetos pode representar uma limitação metodológica em iniciativas REDD+. No segundo capítulo, avaliamos a dinâmica dos estoques de carbono acima do solo em um cerradão preservado (CP) de 0,5 hectares e em um cerradão em sucessão (CS) de 0,5 hectares, aproximadamente 50 anos após o corte raso, na região de transição Cerrado–Amazônia. Os estoques de carbono acima do solo ao longo dos censos variaram entre 22,8 e 25,0 Mg C no CP e 21,3 e 25,8 Mg C no CS. Não encontramos diferença significativa nos estoques de carbono acima do solo entre CP e CS (teste t: p = 0,67). Do mesmo modo, não foram detectadas diferenças significativas entre as áreas nas comparações censo-a-censo (p > 0,05). Apesar das reduções nos estoques de carbono ao longo dos censos, não foram detectadas diferenças significativas entre os censos, sugerindo relativa estabilidade dos estoques ao longo do período monitorado (CP: ANOVA, p = 0,261; CS: ANOVA, p = 0,059). Os modelos lineares não indicaram tendência temporal significativa nos estoques médios de carbono acima do solo em nenhuma das áreas (p > 0,05). A taxa de mudança líquida anual dos estoques de carbono (Tx.MC) diferiu significativamente entre os intervalos de monitoramento, tanto no cerradão preservado (CP) (p = 0,0004) quanto no cerradão em sucessão (CS) (p = 0,0002). Entretanto, não foram observadas diferenças significativas na Tx.MC entre as áreas (CP × CS; p = 0,2936), nem interação significativa entre área e intervalo de monitoramento (p = 0,2392). Entre as espécies com maior acúmulo de carbono, apenas Hirtella glandulosa apresentou ganho expressivo em ambas as áreas, com maior incremento no cerradão em sucessão (CS). Por outro lado, Xylopia aromatica, Matayba guianensis, Tapirira guianensis e Eriotheca gracilipes apresentaram redução no estoque de carbono tanto no cerradão preservado (CP) quanto no CS, enquanto Vatairea macrocarpa e Tachigali vulgaris apresentaram comportamento contrastante entre as áreas. Esses resultados evidenciam diferenças na dinâmica do carbono entre as espécies e entre os estágios de conservação e sucessão da vegetação. Em conjunto, os resultados evidenciam que florestas do Cerrado, incluindo formações em sucessão, apresentam relevante potencial de armazenamento de carbono e podem contribuir para estratégias de mitigação das mudanças climáticas e conservação da biodiversidade na transição Cerrado–Amazônia. Além disso, demonstram que a dinâmica temporal dos estoques de carbono deve ser incorporada de forma mais explícita em metodologias voltadas à estimativa de créditos de carbono, a fim de tornar os projetos mais robustos, transparentes e confiáveis.