ANUROFAUNA EM CURSOS D'ÁGUA URBANOS DO PANTANAL BRASILEIRO: DIVERSIDADE, COMPOSIÇÃO E INFLUÊNCIA DA SAZONALIDADE E DAS CONDIÇÕES AMBIENTAIS
Anfíbios; ecologia urbana; impactos antrópicos; Áreas úmidas; preditores ambientais.
A urbanização tem promovido profundas alterações nos ecossistemas naturais, impactando significativamente a biodiversidade e a estrutura de comunidades biológicas sensíveis, como os anfíbios. Devido à pele altamente permeável e ao ciclo de vida bifásico, com dependência de ambientes aquáticos e terrestres, esses organismos são particularmente vulneráveis às mudanças ambientais, sendo amplamente reconhecidos como indicadores da integridade dos habitats. No município de Cáceres, Mato Grosso, os cursos d'água urbanos têm sido submetidos a intensas intervenções antrópicas, incluindo supressão da vegetação ripária, erosão, assoreamento, poluição e alterações no regime de drenagem, configurando um cenário de crescente pressão ambiental sobre as assembleias de anuros. Diante desse contexto, esta dissertação teve como objetivos analisar a riqueza, a abundância e a composição das assembleias de anuros em cursos d'água urbanos do município de Cáceres, considerando suas variações espaciais e sazonais, e investigar a influência de variáveis ambientais, estruturais e físico-químicas da água sobre a estruturação dessas assembleias. As amostragens foram realizadas entre novembro de 2024 e setembro de 2025 em quatro cursos d'água urbanos, abrangendo as estações chuvosa e seca, por meio de buscas ativas visuais e registros acústicos. Foram registrados 2.166 indivíduos, pertencentes a 27 espécies, 13 gêneros e cinco famílias de anuros, com predominância de Leptodactylidae e Hylidae. A riqueza registrada correspondeu a aproximadamente 15,8% da anurofauna conhecida para Mato Grosso, 23,9% daquela registrada para o Pantanal e 55,1% das espécies conhecidas para o município de Cáceres. A curva de rarefação apresentou forte tendência à assíntota, indicando elevada representatividade da riqueza de espécies presente na área estudada. Embora as assembleias apresentassem ampla sobreposição entre os cursos d'água, foram detectadas diferenças espaciais em sua composição, com destaque para a maior heterogeneidade observada no Córrego José Bastos. A riqueza foi significativamente maior durante o período chuvoso, enquanto a abundância não diferiu entre as estações, evidenciando a influência da sazonalidade sobre a dinâmica das assembleias. A maioria dos trechos apresentou condição ambiental moderada, embora setores com maior integridade estrutural tenham sido registrados principalmente no Córrego José Bastos e no Canal do Fontes. A riqueza apresentou tendência de associação positiva com a umidade relativa do ar e negativa com a condutividade elétrica, enquanto a abundância foi positivamente associada ao pH e à temperatura da água e negativamente associada à largura dos cursos d'água e à condutividade elétrica. A composição das assembleias esteve significativamente relacionada à condutividade elétrica, à temperatura e profundidade da água, ao pH, à largura dos cursos d'água, à temperatura do ar e à integridade ambiental dos habitats. Os resultados indicam predominância de espécies generalistas e tolerantes às alterações ambientais, compatível com processos de filtragem ambiental e homogeneização biótica associados à urbanização. Apesar das pressões antrópicas e da degradação dos habitats, os cursos d'água urbanos de Cáceres ainda sustentam uma diversidade considerável de anuros e podem funcionar como habitats reprodutivos, áreas de permanência e corredores para a fauna local. Assim, a manutenção da qualidade da água, da vegetação ripária, da heterogeneidade ambiental e da conectividade entre habitats constitui fator essencial para a persistência dessas assembleias, especialmente das espécies mais sensíveis às alterações ambientais. Este trabalho fornece subsídios para o planejamento urbano, o manejo dos sistemas aquáticos e a formulação de estratégias de conservação da biodiversidade em paisagens urbanizadas do Pantanal.