A FAMÍLIA NA CONTEMPORANEIDADE BRASILEIRA: MODOS DE CONSTITUIÇÃO
Semântica da Enunciação. Família. Argumentação. Formação Nominal.
O presente trabalho inscreve-se na linha de pesquisa Estudo dos Processos de Significação do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Linguística da Universidade do Estado de Mato Grosso, e visa compreender como se constituem os sentidos de família na contemporaneidade brasileira tendo em vista as diferentes formas de organização familiar. A história enunciativa da constituição da família se entrelaça à história da humanidade. Sem uma não há como pensar a existência da outra. Na contemporaneidade brasileira observamos que, simultaneamente ao modelo tradicional de família, constituída por um homem e uma mulher, convivem outros modos de (re)configuração familiar, produzindo pelo funcionamento da linguagem sentidos que entram em conflito no acontecimento de enunciação que dizem sobre a família. Esses diferentes modos de (re)configuração têm uma relação com as mudanças econômicas, histórico-socais, jurídicas e de afetividade, e nesta direção, podemos dizer que os sentidos de família não são estáticos, pois alteram-se, modificam-se, transformam-se e não significam igualmente para todos, por se tratar de uma construção histórico-social. Filiada à Semântica da Enunciação desenvolvida por Guimarães (1987; 1995; 2002; 2018) e por Dias (1996; 2018), analisamos, em documentos oficiais da Igreja, do Estado e em textos eletrônicos, inicialmente as relações de argumentação e sentido e, num segundo momento, como as articulações internominais sustentam na/pela enunciação sentidos para família. Para a realização das análises nos valemos dos procedimentos de sondagem (GUIMARÃES, 2018) e das redes enunciativas (DIAS, 2018). Mobilizamos estes dois procedimentos por considerá-los necessários e fundamentais tendo em vista o modo como se desenham duas questões pontuais de linguagem no material recortado: de um lado temos a argumentação e, de outro, a formação nominal. As análises apontam que a constituição dos sentidos de família se dá no lugar do embate, do conflito, entre aqueles para quem a família é uma instituição formada por um homem e uma mulher, e aqueles que, não se incluindo nessa configuração, lutam pelo reconhecimento e pela igualização da legitimação dessa diferença. A família é significada por uma relação eu sustento que família é ‘x’ a um tu, que se relativiza por uma relação eu sustento que a família ‘x’ existe para um tu do mesmo sexo. Na relação tensionada entre o que diz a Igreja, o Estado e cidadãos brasileiros, observamos que a enunciação do nome família é significada por diferentes convergentes adjetivais, esses modos de significar família ancoram-se no dizer e vão produzindo pelo funcionamento da linguagem uma disputa de sentidos que instala no dizer vários sentidos para família.