ATITUDES LINGUÍSTICAS, PROCESSOS DE ENSINO E O ROTACISMO NO FALAR CUIABANO: UM ESTUDO SOCIOLINGUÍSTICO
Sociolinguística; Atitudes linguísticas; Práticas de oralidade; Ensino.
Esta tese de doutorado em Linguística, vinculada à área de concentração Estudos de Processos Linguísticos e à linha de pesquisa Estudo de Processos de Variação e Mudança e de Descrição, Análise e Documentação de Línguas Indígenas do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Linguística da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), fundamenta-se nos princípios da Sociolinguística, nos estudos sobre crenças e atitudes linguísticas e nos pressupostos da Sociolinguística Educacional. O estudo tem como objetivo analisar os valores atribuídos, no âmbito das práticas de oralidade e dos processos de ensino de língua, às variedades linguísticas que circulam em sala de aula. Busca-se, ainda, compreender em quais crenças e atitudes linguísticas os docentes de Língua Portuguesa ancoram sua mediação pedagógica e, de modo particular, interpretar quais comportamentos pedagógicos e linguísticos orientam suas ações diante da presença de traços regionais e culturais do metaplasmo rotacismo no falar cuiabano. O rotacismo investigado manifesta-se como uma característica marcante do falar cuiabano, ocorrendo na substituição do [l] pelo [r] em contextos como coda silábica (palma/parma) e encontros consonantais (bicicleta/bicicreta), conforme descrito por Cox (2009). Esse fenômeno expressa valores identitários regionais e torna-se um ponto sensível na mediação docente quando confrontado com exigências normativas e expectativas de adequação linguística. As análises evidenciam que crenças e atitudes linguísticas se materializam em comportamentos, valores e afetos que orientam as decisões pedagógicas dos professores, oscilando entre a naturalização das variantes locais e a intervenção corretiva. Em muitos casos, elementos do falar cuiabano suscitam estranhamentos, estigmatizações e práticas de preconceito linguístico, sobretudo quando o comportamento pedagógico privilegia a escrita normativa e a preparação dos estudantes para o mundo do trabalho. Esse cenário reforça a necessidade de compreender a variação linguística como componente central das práticas escolares e de reconhecer a Sociolinguística como fundamento teórico para a análise do uso contextual da língua em sua relação com a sociedade. Metodologicamente, a pesquisa ancora-se nos pressupostos da Teoria da Variação de Labov (2008 [1972]), nas contribuições de Bortoni-Ricardo (2001, 2004, 2005) e de Bortoni-Ricardo e Almeida (2023), nos estudos de Freitag (2009, 2010, 2016) e nos aportes de Zilles e Faraco (2015), Dal Corno et al. (2010), Aguilera (2008), Frosi (2010), Bagno (2007, 2009, 2012), Calvet (2002), Lambert e Lambert (1972), Tarallo (2008), Faraco (2008), Antunes (2007, 2014) e Soares (2023). Os dados, obtidos por meio de entrevistas e questionários aplicados a seis professores de duas escolas localizadas em Cuiabá e Várzea Grande, na Baixada Cuiabana, indicam que ainda prevalece a concepção de que o currículo escolar e as práticas pedagógicas conduzem o professor a intervir, corrigir e “aperfeiçoar” falares associados a variedades socialmente marginalizadas. Mesmo quando se observam atitudes positivas em relação à diversidade linguística, a presença de comportamentos de complacência, vigilância e intervenção recorrente revela práticas que podem contribuir para silenciamentos e negligenciamentos. Tais atitudes reafirmam a centralidade atribuída à norma culta no espaço escolar e evidenciam as tensões entre a valorização das variedades locais e as expectativas de adequação linguística formal.