ENTRE COSMOLOGIAS ANCESTRAIS E EMANCIPAÇÃO CRÍTICA: DO CÂNONE LITERÁRIO À LITERATURA DE AUTORIA INDÍGENA NO ENSINO MÉDIO
Literatura de autoria indígena. Enunciação indígena. Lei nº 11.645/2008. Decolonialidade. Práxis emancipatória.
Esta investigação problematiza a presença, ainda restrita, da literatura de autoria indígena no Ensino Médio, bem como a persistência de um cânone constituído sob perspectivas eurocentradas que representa os povos indígenas a partir do olhar do outro, contribuindo para a invisibilização de suas vozes, autorias e formas próprias de enunciação. Busca-se, concomitantemente, ressignificar o modo como a literatura de autoria indígena no Ensino Médio, em consonância com a Lei nº 11.645/2008, contribui para desconstruir representações canônicas dos povos indígenas, reconhecê-los como sujeitos de enunciação e reconstruir possibilidades de uma práxis educativa crítica e emancipatória. A investigação objetiva reconhecer e valorizar a literatura indígena como produtora de saberes, memórias e identidades ao tensionar epistemologias que subalternizaram as vozes dos povos originários no espaço escolar. De abordagem qualitativa e orientada por uma perspectiva decolonial, a pesquisa foi desenvolvida com estudantes do Ensino Médio da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Marechal Rondon, em Vilhena, Rondônia, tomando a sala de aula como espaço de investigação e práxis. Articulam-se a análise de materiais didáticos e paradidáticos e práticas de leitura, discussão e letramento literário com obras de autoria indígena e não indígena. A fundamentação teórica estabelece diálogos com os estudos sobre colonialidade, decolonialidade e interculturalidade crítica, em interlocução com intelectuais indígenas e com a pedagogia freireana, assumida como fundamento central para a compreensão da educação enquanto práxis crítica e emancipatória. As experiências pedagógicas incluem o trabalho com diferentes obras de autoria indígena com práticas voltadas à pluralidade linguística e cultural e à interlocução entre diferentes matrizes literárias. A sondagem diagnóstica realizada com estudantes evidenciou lacunas no contato e na compreensão da literatura de autoria indígena, inclusive na distinção entre literatura indígena e indianista. Os resultados construídos até esta etapa indicam que a presença da autoria indígena no ensino de literatura não se restringe ao cumprimento de uma prescrição curricular, pois ao deslocar os povos indígenas da condição de objetos de representação para sujeitos de enunciação, possibilita-se desnaturalizar hierarquias epistemológicas e ampliar espaços de diálogo, protagonismo discente e reconhecimento da pluralidade cultural. As práticas desenvolvidas apontam, assim, para possibilidades de efetivação da Lei nº 11.645/2008 por meio de uma educação literária dialógica, decolonial e comprometida com processos de emancipação no espaço escolar