INFÂNCIAS EM TERRITÓRIO DE PERTENCIMENTO: MEMÓRIAS DOCENTES, PRÁTICAS PEDAGÓGICAS E REGISTROS NA EDUCAÇÃO INFANTIL RIBEIRINHA/PANTANEIRA
Educação Infantil. Infâncias ribeirinhas/pantaneiras. Memórias docentes. Relações socioafetivas. Território.
A presente dissertação investiga as interfaces entre a Educação Infantil e as territorialidades ribeirinhas e pantaneiras no município de Cáceres–MT, analisando como o cotidiano escolar potencializa ou invisibiliza saberes, culturas e experiências vernáculas das crianças. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de natureza narrativa e etnográfica, que se inscreve no campo dos estudos sobre memória, território e desenvolvimento socioemocional na Educação Infantil, orientada por referenciais decoloniais. O objetivo do estudo consiste em compreender como as memórias de infância das professoras, suas práticas pedagógicas e os documentos institucionais da Educação Infantil influenciam a construção das relações socioafetivas das crianças, podendo contribuir para o fortalecimento do pertencimento cultural e identitário ou, ao contrário, para o silenciamento das experiências ribeirinhas e pantaneiras. O percurso metodológico articula narrativas de professoras da Educação Infantil, análise de registros pedagógicos, como planejamentos, Projeto Político-Pedagógico, o Documento Referencial Curricular de Mato Grosso, a Base Nacional Comum Curricular, além de observações do cotidiano escolar registradas em diário de campo. Os resultados indicam na análise documental e na imersão etnográfica revelaram que a estrutura institucional opera, frequentemente, o que se define como um estreitamento curricular. Esse fenômeno caracteriza-se pela primazia de uma linguagem universalizante e performática que tende ao epistemicídio dos saberes locais, convertendo a riqueza do território ribeirinho em silêncio administrativo. No entanto, as narrativas biográficas das docentes colaboradoras identificadas pelas categorias analíticas Açucena, Lírio do Pantanal e Vitória-Régia demonstraram que a agência docente se constitui como um espaço de desobediência epistêmica. Conclui-se que o fortalecimento da identidade pantaneira no contexto escolar não advém das prescrições burocráticas, mas de uma "pedagogia do pertencimento" tecida nas frestas da padronização. A ação das professoras, ao "pantaneizar" os campos de experiência, rompe com a colonialidade do saber e reafirma o território não apenas como cenário geográfico, mas como rede de pertencimento e substrato essencial do desenvolvimento infantil. Reafirma que a Educação Infantil ribeirinha e pantaneira se fortalece quando reconhece as memórias docentes e os saberes locais como dimensões legítimas do processo educativo, apontando a necessidade de práticas pedagógicas contextualizadas, sensíveis ao território e comprometidas com a construção de identidades, vínculos e pertencimento das crianças.