TRANSFORMAÇÕES SOCIOESPACIAIS DE JUARA, MATO GROSSO
transformação socioespacial; memória; ocupação espacial; Juara-MT; documentos e fotografias.
A transformação socioespacial é um processo dinâmico que reflete as mudanças nas relações sociais, na organização territorial e no uso do espaço, sendo fundamental para compreender o desenvolvimento de cidades e regiões. Esta pesquisa teve como objetivo analisar as transformações socioespaciais da cidade de Juara, no Estado de Mato Grosso, considerando registros documentais e fotográficos como fontes históricas complementares de análise. A integração entre documentos escritos e imagens possibilitou a reconstrução crítica das dinâmicas de ocupação, colonização e organização territorial, uma vez que ambos os registros permitem compreender os aspectos materiais da paisagem e as representações sociais que moldaram o espaço (Kossoy, 2001). O estudo revelou que a ocupação espacial de Juara foi impulsionada por interesses políticos e econômicos vinculados à exploração dos bens comuns naturais, tratados tão somente com recursos e ao avanço da fronteira agrícola, sendo fortemente marcada por fluxos migratórios e políticas estatais voltadas à ocupação/invasão dos chamados “espaços vazios” do território brasileiro. Nesse processo, identificou-se que a narrativa oficial atribui aos pioneiros o papel de transformação, consolidando-os no imaginário social como protagonistas da história local. Embora parte deles tenha ascendido socialmente, outros enfrentaram precariedades e exclusões decorrentes da concentração fundiária. A pesquisa também evidenciou a invisibilização dos povos indígenas, primeiros habitantes da região, que foram deslocados para as margens geográficas e políticas, sem reconhecimento como sujeitos ativos no processo de colonização. Paralelamente, a classe trabalhadora rural e os pequenos agricultores, impactados pela modernização agrícola e pela expansão do agronegócio, vivenciaram processos de exclusão social, êxodo rural e migração para áreas periféricas urbanas, muitas vezes destituídas de infraestrutura básica. Apesar de sua relevância na construção e manutenção da cidade, sua presença raramente é reconhecida nas narrativas oficiais. Os resultados apontam que a espacialidade de Juara é marcada por disputas de memória, poder e reconhecimento: os pioneiros ocupam o centro simbólico, os indígenas permanecem nas bordas e a classe trabalhadora habita os interstícios da cidade erguida sobre seu trabalho. No entanto, essas posições não são estáticas, pois movimentos sociais, práticas culturais e espaços de resistência, como o Kalunga, demonstram possibilidades de reconfiguração e ressignificação da memória coletiva. Como considerações finais, o estudo destaca a importância da preservação documental e fotográfica para compreender criticamente os processos históricos e socioespaciais. Além disso, aponta a necessidade de investigações prospectivas que considerem os cenários futuros de Juara, contemplando dimensões econômicas, sociais, ambientais e demográficas. Tais reflexões podem contribuir para políticas públicas mais inclusivas e para um planejamento territorial que promova justiça social, valorização cultural e sustentabilidade.