CALENDÁRIO TRADICIONAL AWETI: O NOSSO JEITO DE CONTAR O TEMPO
Povo Aweti. Calendário tradicional. Educação escolar indígena. Língua materna. Saberes tradicionais.
Esta dissertação apresenta uma pesquisa sobre o “Calendário Tradicional do Povo Aweti (Awytyza Epora’ang)”, desenvolvida com o propósito de registrar, valorizar e fortalecer conhecimentos tradicionais relacionados às formas próprias de compreender e orientar o tempo, articulando-os às práticas da educação escolar indígena. A pesquisa partiu da constatação da ausência de materiais didáticos publicados que contemplem, de maneira específica, a cultura, os conhecimentos tradicionais e a língua materna Aweti no contexto escolar da comunidade. O estudo teve como objetivo geral registrar os conhecimentos do meu povo Aweti sobre o calendário tradicional, relacionando-os aos valores culturais e produzindo um material didático destinado à escola da aldeia. Para isso, foram considerados fenômenos e elementos da natureza que orientam as nossas atividades culturais e cotidianas, como os períodos de chuva, piracema, floração, cantoria das cigarras, constelações, ventos e outros sinais da natureza, bem como os períodos de pesca, caça, plantio, roçada, colheita, produção de polvilho, extração e processamento do sal tradicional e realização de rituais. A pesquisa, de abordagem qualitativa e caráter participativo e etnográfico, foi realizada na aldeia Aweti, no Território Indígena do Alto Xingu, com a participação de estudantes, anciãos e anciãs, jovens, adultos, professores e demais membros da comunidade. O percurso metodológico envolveu pesquisa bibliográfica, entrevistas com os detentores dos conhecimentos tradicionais, registros audiovisuais, transcrição de narrativas orais para a escrita em língua Aweti, observações do território e atividades pedagógicas desenvolvidas com os estudantes. E, nesse percurso, nossa pesquisa dialogou, especialmente, com estudos produzidos por autores indígenas, entre eles Txicão (2021) e Kamaiurá (2024), além de referenciais relacionados à educação escolar indígena, como Baniwa (2019), o RCNEI e a legislação brasileira. Dialoga também com Paulo Freire, sobretudo no que se refere à educação como prática dialógica e à relação entre pesquisa, conhecimento e práxis. Para a abordagem metodológica, apoia-se nas contribuições de Minayo (2011) e Geertz (2008), considerando o caráter qualitativo e etnográfico do estudo. As atividades realizadas possibilitaram aproximar os conhecimentos dos anciãos e anciãs das práticas escolares, envolvendo os estudantes na escuta, registro e produção de conhecimentos sobre o nosso calendário tradicional. Também foram desenvolvidas atividades de observação dos fenômenos da natureza e das práticas culturais, buscando compreender transformações ocorridas nos períodos e modos de realização dessas atividades. Como resultado da pesquisa, foi elaborado um material didático na língua Aweti sobre o nosso calendário tradicional Aweti, constituído por textos, narrativas, ilustrações e atividades pedagógicas, destinado ao uso no ensino fundamental e médio. A pesquisa aponta a importância dos conhecimentos dos anciãos e anciãs como referências fundamentais para a compreensão do tempo, da natureza, da cultura e da cosmologia Aweti, contribuindo para o fortalecimento de nossa língua materna, de nossa identidade cultural e de uma educação escolar indígena específica, diferenciada, intercultural e vinculada aos nossos conhecimentos próprios.