“A MULHER NA POLÍTICA NÃO TEM UM MINUTO DE PAZ”: representação discursiva da violência política de gênero
Violência política de gênero; Análise textual dos discursos; Representações discursivas; Interseccionalidade; Mulher na política.
Esta pesquisa investiga os mecanismos linguístico-discursivos mobilizados na construção da violência política de gênero em enunciados dirigidos à ex-vereadora Graciele Marques dos Santos (PT), primeira mulher negra eleita para a Câmara Municipal de Sinop (MT), com o objetivo de compreender de que modo determinadas operações discursivas participam da produção de efeitos de deslegitimação da mulher no espaço político. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa de caráter interpretativista, fundamentada na Análise Textual dos Discursos (Adam, 2008), que analisa um corpus de comentários publicados em ambientes digitais a partir das operações de referenciação, predicação, modificação e localização, articulando essa descrição textual a contribuições dos estudos discursivos, feministas e interseccionais para interpretar os efeitos de sentido observados no corpus. A análise permitiu observar regularidades organizadas em três eixos complementares, dos quais o primeiro reúne representações do feminino, marcadas pela recategorização moral e sexualizada da mulher na política, bem como por estratégias de silenciamento e exclusão do espaço público. O segundo contempla representações do político, construídas por meio da criminalização moral, da imputação de corrupção, da desumanização e de discursos de purificação social associados ao antipetismo e à rejeição de determinadas formas de participação política. O terceiro eixo corresponde à zona de interseção entre gênero e política, na qual os ataques não incidem exclusivamente sobre a condição feminina nem apenas sobre o pertencimento ideológico, mas articulam simultaneamente essas dimensões na produção de formas específicas de deslegitimação. Os resultados demonstram que a violência política de gênero não se limita ao insulto explícito, manifestando-se também por meio de mecanismos discursivos que questionam a legitimidade da mulher para ocupar posições de poder, restringem sua autoridade enunciativa e contestam seu pertencimento à comunidade política considerada legítima. Tais funcionamentos se sustentam em formações sociodiscursivas e memórias interdiscursivas que reatualizam matrizes históricas de controle social, moralização da política, exclusão simbólica e disciplinamento dos corpos femininos. Conclui-se que a violência política de gênero constitui um fenômeno discursivamente estruturado, cuja eficácia depende da naturalização de práticas de desqualificação que circulam no espaço público sob a aparência de crítica política, opinião ou vigilância moral.