“A MULHER NA POLÍTICA NÃO TEM UM MINUTO DE PAZ”: análise textual-discursiva da violência política de gênero
Violência política de gênero; Discurso; Interseccionalidade; Linguagem e poder; Mulheres na política.
Esta pesquisa investiga os mecanismos linguístico-discursivos que constituem a violência política de gênero em enunciados dirigidos à ex-vereadora Graciele Marques dos Santos (PT), primeira mulher vinculada a um partido progressista eleita em Sinop (MT). Ancorado na perspectiva da Análise Textual dos Discursos (Adam, 2011, 2021), o estudo analisa um corpus composto por postagens e comentários públicos publicados em redes sociais e busca compreender como operações textuais de referenciação, predicação, modificação e localização constroem representações discursivas que desqualificam, silenciam e excluem o sujeito político feminino. A análise identificou regularidades discursivas organizadas em três macroeixos: (i) recategorização moral da mulher política, por meio de insultos e julgamentos axiológicos que a deslocam do estatuto de agente político; (ii) deslegitimação e silenciamento da fala feminina no espaço público; e (iii) criminalização moral e política da atuação parlamentar, frequentemente associada à corrupção ou à ameaça à ordem social. Esses funcionamentos se sustentam em metáforas patológicas e morais, como “vagabunda” e “câncer”, que traduzem processos de desumanização e exclusão simbólica. No plano discursivo mais amplo, tais representações se articulam a formações sociodiscursivas e memórias interdiscursivas que reativam matrizes históricas de controle social, como a moral produtivista do trabalho, o patriarcado que regula a presença feminina na esfera pública e a suspeição dirigida a sujeitos de origem popular. A análise interseccional demonstra ainda que a violência política de gênero se intensifica na articulação entre gênero, classe e raça, produzindo formas específicas de deslegitimação da mulher na política. Por fim, conclui-se que a violência política de gênero não se manifesta apenas como agressão individual ou insulto episódico. O fenômeno assume forma discursiva estruturada e se sustenta em memórias históricas de exclusão que se naturalizam na linguagem cotidiana sob a aparência de opinião ou vigilância moral. A pesquisa descreve os mecanismos textuais e discursivos que sustentam esses enunciados e evidencia o papel da linguagem na produção e na legitimação da violência política contemporânea.