A LITERATURA E O DIREITO À HUMANIZAÇÃO: o corpo feminino e a estética da reparação em Lygia Bojunga e Paty Wolff
Direito à Literatura; Corpo Feminino; Reparação; Lygia Bojunga; Paty Wolff
Este trabalho investiga a articulação entre a literatura de reparação e o direito à humanização, analisando o corpo feminino e a memória como eixos de resistência diante das violências de gênero. A pesquisa propõe um diálogo entre as obras O abraço (1995/2010), de Lygia Bojunga, e Como pássaros no céu de Aruanda (2021), de Paty Wolff, com foco nos minicontos “Kianga”, “Zahara”, “Ayo”, “Bájá” e “Graúna”. A análise abrange um recorte de meio século de produção literária feminina, acompanhando o percurso que vincula a tradição à contemporaneidade insurgente. O estudo parte da compreensão da literatura como direito fundamental (Candido, 2011) e forma de resistência ética (Bosi, 2002), atuando como instância de reparação subjetiva nos espaços onde o ordenamento jurídico se mostra insuficiente. A discussão mobiliza o conceito de “escrevivência” (Evaristo, 2007) e os estudos sobre testemunho e trauma (Seligmann-Silva, 2003), sob as lentes da interseccionalidade (Akotirene, 2019) e do combate ao epistemicídio (Carneiro, 2019). A noção de Estética da Reparação adota as reflexões de Françoise Vergès (2022) sobre o ato de reparar enquanto prática política decolonial que confronta a desumanização gerada pelo capitalismo racial. Observa-se que a concisão narrativa e a opacidade formal dessas obras realizam uma justiça simbólica que restitui a dignidade ao corpo-território feminino. Com amparo na crítica feminista decolonial (Segato, 2016; Kilomba, 2019), conclui-se que a poética de Bojunga e Wolff se estabelece como solo de reparação indispensável ao enfrentamento das estruturas patriarcais e coloniais vigentes.