MACABÉA: FLOR DE MULUNGU: ANCESTRALIDADE E RESISTÊNCIA DA MULHER NEGRA NA LITERATURA NEGRO-BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA
Literatura afro-brasileira; Ancestralidade; Feminismo negro
O conto Macabéa: flor de mulungu (2023), de Conceição Evaristo, resultou de um convite da Editora Oficina Raquel para que escritoras e escritores contemporâneos dialogassem com a obra A hora da estrela (Lispector,1977), de Clarice Lispector. Ao revisitar a personagem Macabéa, Evaristo promoveu uma releitura crítica que a reinscreve no campo da literatura negro-brasileira contemporânea, deslocando-a da condição de invisibilidade e silenciamento para um lugar de resistência, memória e ancestralidade. Nesse sentido, a personagem deixa de ser apenas objeto narrativo para assumir o estatuto de sujeito histórico, político e epistemológico, em confronto direto com o cânone literário eurocêntrico. O problema de pesquisa consistiu em compreender de que maneira Conceição Evaristo ressignifica a personagem Macabéa, transformando-a em símbolo de reexistência e de afirmação da identidade afro-brasileira, diante do apagamento e do epistemicídio historicamente impostos às mulheres negras. O objetivo geral da pesquisa foi analisar as representações da mulher negra no conto, observando como a escrita de Evaristo subverte discursos hegemônicos por meio do lirismo, da ancestralidade e da brasilidade plural. Como objetivos específicos, buscou-se investigar a articulação entre memória, identidade e resistência, bem como dialogar com conceitos centrais do feminismo negro e da crítica decolonial. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, de caráter bibliográfico e analítico, fundamentada nos conceitos de interseccionalidade (Crenshaw, 2002), subalternidade (Spivak, 2010) e epistemicídio (Carneiro, 2005). A metodologia envolveu leitura atenta do conto, revisão crítica da literatura teórica e análise literária orientada por eixos temáticos: ancestralidade, memória, identidade e brasilidade plural. Os resultados indicaram que Evaristo ressignificou Macabéa como personagem una e múltipla, guardiã de saberes coletivos e síntese de matrizes indígenas, negras e portuguesas, reafirmando a literatura afro-brasileira como espaço de resistência política, valorização da memória e construção de uma perspectiva decolonial.