A POÉTICA DO DESENCANTO NA PRODUÇÃO ROMANESCA DE EDUARDO MAHON
DESENCANTO.EXPERÊNCIA. CORPO. MORTE. EDUARDO MAHON.
Este trabalho investiga a produção romanesca de Eduardo Mahon a partir da formulação da categoria poética do desencanto, compreendida como um princípio estético e existencial que organiza a configuração das narrativas e a singularidade das personagens. O estudo parte da hipótese de que os romances publicados pelo autor entre 2014 e 2022 articulam racionalidade, corpo, morte e linguagem-vazio como eixos estruturantes de uma escrita marcada pela precarização da experiência, pelo esgotamento das mediações simbólicas e pela instabilidade da subjetividade contemporânea. O corpus é composto pelos romances O cambista (2014), O fantástico encontro de Paul Zimmermann (2016), O homem binário e outras memórias da senhora Bertha Kowalski (2017), Alegria (2018), A gente era obrigado a ser feliz (2019), Mea culpa (2020), O homem do país que não existe (2022) e O imprevisto (2022). A pesquisa adota uma abordagem hermenêutica e comparativa, fundamentada na leitura imanente das obras e na articulação com referenciais da teoria literária, da filosofia e da crítica recente. O aporte teórico mobiliza principalmente as reflexões de Max Weber sobre o desencantamento do mundo e a racionalização moderna; Walter Benjamin acerca da crise da experiência; Theodor Adorno e Max Horkheimer sobre a racionalidade instrumental; Michel Foucault e Giorgio Agamben no que se refere aos dispositivos de controle e administração da vida; Maurice Blanchot em suas formulações sobre linguagem e morte; Florencia Garramuño acerca da estética dos restos e da incompletude; além das contribuições críticas de Antonio Candido e Alfredo Bosi sobre a relação entre forma literária e realidade histórica. A análise demonstra que o desencanto, no conjunto da obra de Eduardo Mahon, ultrapassa a condição de tema recorrente e se converte em procedimento formal que atravessa a organização da narrativa, a constituição das personagens e o funcionamento da linguagem. A racionalidade aparece associada a sujeitos marcados por uma consciência excessiva, incapazes de transformar lucidez em estabilidade existencial. O corpo surge como território de desgaste, vigilância e vulnerabilidade; a morte se manifesta como presença constante que reorganiza a relação com o tempo, a memória e a identidade; a linguagem se constrói a partir de fragmentos, interrupções e opacidades que evidenciam os limites do humano. Nos romances analisados, observa-se a elaboração de uma escrita marcada pela negatividade estética, que se manifesta na incorporação formal da fragmentação, da opacidade e da impossibilidade de estabilização plena da experiência, bem como na fragmentação do eu e na precariedade das relações entre sujeito, linguagem e mundo, o que converte o desencanto em matéria narrativa. Nesse sentido, a produção romanesca de Eduardo Mahon constitui uma das expressões significativas da literatura contemporânea brasileira voltada à elaboração crítica dos impasses da contemporaneidade. Os romances articulam racionalização, corpo, morte e linguagem em uma poética que formaliza o esgotamento das promessas modernas de sentido e a instabilidade constitutiva do sujeito.