DOS PORÕES À PROA: REPRESENTAÇÃO DIASPÓRICA NA LITERATURA NEGRA DE MARIA FIRMINA DOS REIS E ANA MARIA GONÇALVES
Literatura negra feminina. Diáspora africana. Atlântico Negro. Memória. Identidade.
Esta tese investiga a construção da representação diaspórica na literatura negra feminina brasileira, tomando a travessia como eixo articulador das experiências de memória, identidade e subjetividade em Úrsula (1859), de Maria Firmina dos Reis, e Um Defeito de Cor (2006), de Ana Maria Gonçalves. Embora escritos em momentos históricos distintos, os romances estabelecem, por meio de suas personagens e de suas estratégias narrativas, diálogos em torno das marcas da escravização, das travessias atlânticas e dos processos de construção identitária que atravessam a experiência negra. Sob a perspectiva do Atlântico Negro e em interlocução com estudos sobre diáspora, identidade, memória, representação e subjetividade, a pesquisa desloca o olhar de personagens negros como objetos de representação para sua constituição como sujeitos de voz, memória e agência. Nesse percurso, a metáfora náutica “dos porões à proa” constitui o princípio organizador da tese, compreendendo o porão, o casco, o leme, a quilha e a proa como imagens que traduzem diferentes dimensões da experiência literária e diaspórica, desde o silenciamento e a subalternização até a consciência, a reexistência e a afirmação da subjetividade. A análise evidencia, assim, como as narrativas de Maria Firmina dos Reis e Ana Maria Gonçalves reelaboram experiências de violência, deslocamento e ruptura por meio de formas literárias que inscrevem memória, resistência e identidade no corpo das personagens e na própria tessitura narrativa. Ao aproximar obras produzidas em séculos distintos, a tese propõe uma leitura da literatura negra feminina como espaço de disputa de representações e de produção de outras possibilidades de existência, nas quais as personagens deixam de ocupar apenas o lugar de objetos do discurso para assumirem a condição de sujeitos de suas próprias histórias.