A ENXADA E A CANETA: LITERATURA, MEMÓRIA E TRAUMA EM ASSENTAMENTOS NO MUNICÍPIO DE ALTO PARAGUAI – MATO GROSSO
Memória. Trauma. Esquecimento. Subalternidade. Assentamento. Alto Paraguai.
Esta tese apresenta uma investigação sobre as expressões literárias e culturais produzidas em Assentamentos do município de Alto Paraguai, situado no estado de Mato Grosso, com foco em narrativas orais, incluindo: poemas, performances, mitos e lendas. A pesquisa tomou como eixo teorias e práxis sobre cultura, história, identidade, memória e trauma, permeando os meandros da subalternidade, a qual essas comunidades foram lançadas ao longo da história social e, consequentemente, fez de suas produções culturais vertentes marginais e invisibilizadas. No entanto, este trabalho científico soma-se a outros que tomam esses produtos como formas artísticas e literárias, com efeitos estéticos e políticos legítimos, capazes de recuperar, preservar e reelaborar experiências coletivas. O estudo organiza-se em três eixos: a memória social; a vida nos assentamentos; e a interpretação de mitos, lendas e outras narrativas do imaginário popular. A formação de assentamentos no município tem estreita relação com a consolidação do urbano e, por isso, historicizar sobre o primeiro requer voltar os olhos também para o segundo. No espaço urbano, a tese destaca o legado traumático do garimpo, das migrações, da exploração do trabalho e das transformações sociais. No espaço rural, investiga práticas orais como: rezas, simpatias, siriri e invenções poéticas, entendidas como formas de resistência e afirmação cultural e identitária. No caso da literatura oral, a circulação dessas expressões fora do cânone, demonstra que a memória não se conserva apenas em arquivos e documentos escritos, mas também na práxis social, pelos rituais, performances coletivas e projetos comunitários. Este estudo demostra que essas práticas reconfiguram os limites do que se reconhece como literatura, ao mesmo tempo em que dão forma simbólica ao sofrimento, ao pertencimento e à sobrevivência. Como aporte teórico, tomar-se-ão as ideias de Ricoeur (2007), Halbwachs (2013), Blanchot (1987; 1997), Bergson (2006), Shellhorse (2005), Candido (2000; 2023) e entre outros.