ENTEROPARASITAS EM POPULAÇÕES INDÍGENAS DO PANTANAL: UMA ABORDAGEM SOB A PERSPECTIVA DA SAÚDE ÚNICA
Vulnerabilidade sanitária; Povos tradicionais; Saneamento básico; Determinantes socioambientais; Epidemiologia
As enteroparasitoses permanecem entre os agravos infecciosos mais frequentes em populações indígenas do Pantanal Mato-grossense, refletindo condições históricas de desigualdade social, limitações no acesso a saneamento básico e água de qualidade, além de fatores ambientais e territoriais. Nesse contexto, esta tese é composta por quatro artigos científicos que, de forma complementar, analisam a ocorrência de enteroparasitoses em populações indígenas, com foco especial nas etnias Boe-Bororo, Guató e Chiquitano, localizadas no Pantanal Mato-grossense. O primeiro artigo apresenta uma revisão da literatura sobre enteroparasitoses em povos indígenas no Brasil, com o objetivo de sistematizar o conhecimento científico existente sobre o tema. Os resultados evidenciam elevada prevalência dessas infecções em diferentes etnias e regiões do país, além de grande diversidade de espécies de enteroparasitárias. O estudo também identificou importantes lacunas na produção científica, destacando que apenas uma parcela das etnias indígenas brasileiras foi investigada, o que revela significativa invisibilidade epidemiológica dessas populações e limita a compreensão mais abrangente do problema em escala nacional. O segundo artigo aprofunda a análise em contexto regional ao investigar a ocorrência de enteroparasitas nas etnias Bororo e Guató, localizadas no Pantanal mato-grossense. Os resultados laboratoriais indicaram alta positividade para infecções parasitárias, com predominância de protozoários intestinais e maior frequência entre crianças e adolescentes. A análise também evidenciou diferenças na prevalência entre as etnias estudadas e apontou a influência de fatores como acesso limitado a saneamento básico, uso de água poço ou rios e condições socioeconômicas vulneráveis, elementos que favorecem a manutenção da transmissão enteroparasitária. O terceiro artigo amplia a discussão ao analisar os impactos socioambientais dos incêndios no Pantanal sobre os povos indígenas da região. Embora não trate diretamente da prevalência de enteroparasitas, esse estudo contribui para compreender o contexto ecológico e territorial em que esses agravos se inserem. Os resultados indicam que eventos ambientais extremos, como os incêndios de grande escala, afetam a disponibilidade de recursos naturais, a qualidade da água e as condições de subsistência das comunidades, podendo intensificar vulnerabilidades sanitárias e aumentar o risco de exposição a diferentes doenças infecciosas. O quarto artigo integra dados laboratoriais e informações socioambientais para analisar a relação entre condições sanitárias, abastecimento de água e ocorrência de enteroparasitas em três etnias do Pantanal mato-grossense. Os resultados demonstram elevada prevalência e associação com fatores como ausência ou precariedade de instalações sanitárias, uso de água não tratada e exposição ambiental a fontes potencialmente contaminadas. De forma integrada, os quatro estudos demonstram que as enteroparasitoses em populações indígenas não podem ser compreendidas apenas como um problema de saúde, mas como resultado da interação entre condições ambientais, desigualdades estruturais e transformações territoriais. A articulação entre revisão da literatura, investigação epidemiológica, alterações ambientais e análise socioambiental permite uma compreensão mais abrangente da dinâmica dessas prevalências na população indígena. Assim, a tese dialoga com a abordagem de Saúde Única, ao reconhecer que “a saúde humana está intrinsecamente conectada à saúde dos animais e do ambiente”, reforçando a necessidade de políticas públicas intersetoriais que considerem simultaneamente saúde, ambiente e condições de vida para a prevenção e controle desses agravos.