ENTRE O CÂNONE E A CRÍTICA: UMA LEITURA ANTIRRACISTA DE O PRESIDENTE NEGRO, DE MONTEIRO LOBATO, NA FORMAÇÃO DOCENTE
Formação docente. Educação antirracista. O Presidente Negro. Relações étnico-raciais.
Esta dissertação investigou como a leitura crítica de O Presidente Negro (1926), de Monteiro Lobato, pode contribuir para a formação docente em uma perspectiva antirracista. O estudo partiu da compreensão de que autores canonizados também veicularam concepções raciais hierarquizantes e de que a escola, por meio do currículo e da mediação da leitura, pode tanto reproduzir essas concepções quanto problematizá-las. Teve como objetivo analisar as percepções de licenciandos em Letras acerca da obra, discutindo as possibilidades e os desafios de sua utilização pedagógica e as estratégias que favorecem a leitura crítica de textos literários racialmente conflituosos. A pesquisa, de abordagem qualitativa, articulou a análise do romance aos estudos sobre racismo científico, eugenia e pensamento racial de Monteiro Lobato. A produção dos dados ocorreu por meio de entrevistas semiestruturadas e de uma roda de conversa com oito licenciandos do curso de Letras, que participaram voluntariamente mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. O referencial teórico reuniu estudos sobre cânone literário, literatura e sociedade, racismo estrutural, colonialidade, currículo, educação das relações étnico-raciais e reexistência. Também foram examinados os marcos legais da educação antirracista, com destaque para a Lei nº 10.639/2003, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais, de 2004, e a Resolução CNE/CP nº 4/2024. A análise da obra evidenciou a presença de discursos que hierarquizam grupos raciais e articulam ciência, branqueamento e controle reprodutivo da população negra, revelando a importância de contextualizar historicamente a narrativa e problematizar suas representações. Concluiu-se que a leitura crítica de obras literárias racialmente conflituosas pode constituir uma possibilidade formativa para a educação antirracista, desde que acompanhada de fundamentação teórica, contextualização histórica e mediação pedagógica comprometida com a problematização do racismo. Desse modo, a pesquisa contribuiu para a reflexão sobre a formação docente e sobre o papel da literatura na construção de práticas educativas críticas, capazes de questionar representações racializadas e ampliar as possibilidades de uma educação comprometida com a equidade racial.